Walter Benjamin escreveu que o cinema é uma forma de arte que enfrenta o perigo, ameaçado por salteadores à beira da estrada, sua vida sempre por um fio. No caso presente, o inimigo não mais se esconde; é máscara que se descola sem que a toquemos. Aparece-nos logo a face cruel, crudelíssima, a da assimilação pelo Poder Público do que não é de maneira alguma público e comum: as práticas vorazes do neocapitalismo.
A Riofilme foi sendo aos poucos destruídas pela "classe", i.e., os que detinham força política para não aceitar qualquer forma de regulação. As folgas desta não eram defeitos da legislação, mas oportunidades que a maioria não quis compreender, pois a distribuidora podia adaptar-se caso-por-caso, a cada-caso. Para início de conversa, a "classe" ia ao gabinete do Secretário da(s) Cultura(s) para sabotar a magna tarefa da empresa municipal: a distribuição, ou seja, os atos de comércio atacadista do setor audiovisual.
Ato de burrice extrema, de vez que, assim sendo, se beneficiava uns poucos, poria por terra qualquer tentativa de programadas co-produções, finalizações, comercializaçãoes e lançamentos. Apesar de sua Lei, simples e direta, contemplando os espectros municipal, estadual, nacional e internacional, havia algo que incomodava as "lideranças", que preferiam acacianamente os "fomentos" às "distribuições". Em outras palavras: as DOAÇÕES de gaita do Erário Municipal, de mão-beijada, como se a Teta das rubricas orlaçamentárias fossem sugadas na base do ninguém-tasca.
A cobiça e a avidez eram tão visíveis, que achei melhor pedir minha demissão (junho de 2003) e partir para bem longe do Rio e do País, o que representou um tremendo alívio para as ratazanas do Cinema Brasileiro. Para mim, então, representou uma profunda catarse, porque, faz 48 anos, sou homem do CB que o trata com o carinho e a delicadeza que merece, como uma flor em broto. Ou seja, como arte, num País como o nosso obrigatoriamente indutora de conscientização, nunca de alienação. A tal corretora é o Dragão da Maldade destes tempos de mutação antropológica homologada: os filmes inspirados, de maior ou menor grandeza, serão os Santos Guerreiros que lancetarão o monstro.
É obra de paciência, de ver para crer!
Abraços compungidos e solidários à Classe do abaixo-firmado
Arnaldo C. -, com as condolências de todos pelo desaparecimento do Anselmo.
Sunday, November 8, 2009
Monday, October 19, 2009
CONFESSO
QUE VI E OUVI
POR FERNANDO BELENS
Cineasta baiano, que participa da Mostra SP 2009 com seu primeiro
longa, Pau Brasil (no elenco, Bertrand Duarte)
O judeu tem o deserto, o povo de santo tem o
resguardo, o cristão tem o pecado, e a imagem na retina está
invertida.
Eu estava no Paraná, no Festival de Cinema, em que
aconteceu um momento que talvez não se repita jamais, o momento-tempo
mágico, entre a exibição do filme “Utopia e Barbárie” e a premiação de
Silvio Tendler como melhor diretor do Festival. Sim eu estava lá, me
perdoem os que não foram.
Havia uma ninfa que preparou o rito: Íttala
Havia Eros e um homem sábio: Cláudio
Havia um condutor de locomotivas: Severo
e uma mulher que não pára: Rosário.
E filmes, muitos filmes e uma tribo de amantes e amigos.
É preciso olhar para o Sul, para a terra das araucárias. Naquele
espaço onde São Paulo desiste e o Rio Grande inexiste, se constrói
algo profundamente delicado, como uma Faca N’água, como um Corisco no
céu diurno.
O FESTIVAL DE CINEMA DO PARANÁ PREMIA
COM O MAIOR VALOR (vírgula), O DIRETOR (ponto).
Eu sabia, acho que quase todos sabiam, que o premio era antes de mil
anos atrás, de Silvio. Não por acordos secretos, arranjos ou
falcatruas. Sabíamos, com o mesmo instinto que leva o cão a saber
nadar, muito antes de conhecer a água. Sabíamos como sabemos que
estamos apaixonados, mesmo que a outra ou outro ainda não saiba.
Sabíamos que poderia e deveria acontecer o ponto mais alto de uma
proposta tão especial, - A VALORIZAÇÃO DO AUTOR-. Aquele era o
Festival onde o Filho de Xangô deveria vencer; vencer por ter moldado
com ferro, fogo e desejo, um filme-painel que jamais será esquecido.
SILVIO VENCEU POR TODOS NÓS: SÍSIFOS-DIRETORES, que carregam até à
mais alta montanha nossas latas de imagens, para na manhã seguinte
vê-las de novo no sopé.
Silvio é nosso Pajé, corpo de ancião e o olhar de criança, ele sabe
que não se ganha sozinho esse jogo duro, de enfrentar o dragão e fazer
prevalecer a delicadeza
Era necessário que também lá estivesse um francês que até tentou falar
em portunhol, uma jovem que lia nas cartas e o sabor de todas as
cores.
SILVIO TENDLER LEVOU DEZENOVE ANOS
PARA REALIZAR “UTOPIA E BARBÁRIE”.
Quando eu ouvi que Silvio ia partir antes da sessão de premiação,
quase que entrei em pânico e perguntei: Mas quem vai receber o prêmio
que todos sabemos, o único que todos sabemos? Ele riu e voltou. Ele
também sabia, precisava completar sua estupenda bruxaria, disfarçada
de tecnologia. Precisava fechar o anel aberto no primeiro dia e que
iluminou todo o festival, pairando sobre Curitiba com a força de um
ancestral. (perdoe-me a rima pobre, mas às vezes a métrica não pode).
Nunca saberemos a totalidade dos signos que formam o corpo de “Utopia
e Barbárie”, o filme é um grande camaleão que a cada aproximação muda
de cor e revela o que não havíamos visto antes e antes, ele é como um
grande painel, tão grande que de longe só podemos ver o conjunto e
perto somente os detalhes; é um filme para várias visitas. Declaro
minha incompetência para naquela sessão, apreender muita coisa além do
êxtase: Estava com a mente iluminada e o coração em frangalhos, com
algo muito maior, que era Íttala, Silvio, o Prêmio, todas as
premonições e um leve bater de asas de borboleta.
Eu vi e vivi aquele momento perfeito, que talvez não volte jamais.
Por isso, falamos e pensamos tanto: “Glauber, Navarro, Pasolini,
Furtado, Santiago, Zapata, Felini, Mia, Amado, Guido, Chiquinho,
Meteorango, Montenegro, Leon, João, Luciano, Misael, Dina, Minotauro,
Lacerda, Brando, Pedro, Ruy e outros tantos, tantos...”
É PRECISO DESAPARELHAR
O OLHAR E VER
O QUE ACONTECE LÁ
NAS TERRAS DO RIO
PARANÁ.
belens
pobre poesia e pura emoção
(Ação!)
bahia, 12.10.09
QUE VI E OUVI
POR FERNANDO BELENS
Cineasta baiano, que participa da Mostra SP 2009 com seu primeiro
longa, Pau Brasil (no elenco, Bertrand Duarte)
O judeu tem o deserto, o povo de santo tem o
resguardo, o cristão tem o pecado, e a imagem na retina está
invertida.
Eu estava no Paraná, no Festival de Cinema, em que
aconteceu um momento que talvez não se repita jamais, o momento-tempo
mágico, entre a exibição do filme “Utopia e Barbárie” e a premiação de
Silvio Tendler como melhor diretor do Festival. Sim eu estava lá, me
perdoem os que não foram.
Havia uma ninfa que preparou o rito: Íttala
Havia Eros e um homem sábio: Cláudio
Havia um condutor de locomotivas: Severo
e uma mulher que não pára: Rosário.
E filmes, muitos filmes e uma tribo de amantes e amigos.
É preciso olhar para o Sul, para a terra das araucárias. Naquele
espaço onde São Paulo desiste e o Rio Grande inexiste, se constrói
algo profundamente delicado, como uma Faca N’água, como um Corisco no
céu diurno.
O FESTIVAL DE CINEMA DO PARANÁ PREMIA
COM O MAIOR VALOR (vírgula), O DIRETOR (ponto).
Eu sabia, acho que quase todos sabiam, que o premio era antes de mil
anos atrás, de Silvio. Não por acordos secretos, arranjos ou
falcatruas. Sabíamos, com o mesmo instinto que leva o cão a saber
nadar, muito antes de conhecer a água. Sabíamos como sabemos que
estamos apaixonados, mesmo que a outra ou outro ainda não saiba.
Sabíamos que poderia e deveria acontecer o ponto mais alto de uma
proposta tão especial, - A VALORIZAÇÃO DO AUTOR-. Aquele era o
Festival onde o Filho de Xangô deveria vencer; vencer por ter moldado
com ferro, fogo e desejo, um filme-painel que jamais será esquecido.
SILVIO VENCEU POR TODOS NÓS: SÍSIFOS-DIRETORES, que carregam até à
mais alta montanha nossas latas de imagens, para na manhã seguinte
vê-las de novo no sopé.
Silvio é nosso Pajé, corpo de ancião e o olhar de criança, ele sabe
que não se ganha sozinho esse jogo duro, de enfrentar o dragão e fazer
prevalecer a delicadeza
Era necessário que também lá estivesse um francês que até tentou falar
em portunhol, uma jovem que lia nas cartas e o sabor de todas as
cores.
SILVIO TENDLER LEVOU DEZENOVE ANOS
PARA REALIZAR “UTOPIA E BARBÁRIE”.
Quando eu ouvi que Silvio ia partir antes da sessão de premiação,
quase que entrei em pânico e perguntei: Mas quem vai receber o prêmio
que todos sabemos, o único que todos sabemos? Ele riu e voltou. Ele
também sabia, precisava completar sua estupenda bruxaria, disfarçada
de tecnologia. Precisava fechar o anel aberto no primeiro dia e que
iluminou todo o festival, pairando sobre Curitiba com a força de um
ancestral. (perdoe-me a rima pobre, mas às vezes a métrica não pode).
Nunca saberemos a totalidade dos signos que formam o corpo de “Utopia
e Barbárie”, o filme é um grande camaleão que a cada aproximação muda
de cor e revela o que não havíamos visto antes e antes, ele é como um
grande painel, tão grande que de longe só podemos ver o conjunto e
perto somente os detalhes; é um filme para várias visitas. Declaro
minha incompetência para naquela sessão, apreender muita coisa além do
êxtase: Estava com a mente iluminada e o coração em frangalhos, com
algo muito maior, que era Íttala, Silvio, o Prêmio, todas as
premonições e um leve bater de asas de borboleta.
Eu vi e vivi aquele momento perfeito, que talvez não volte jamais.
Por isso, falamos e pensamos tanto: “Glauber, Navarro, Pasolini,
Furtado, Santiago, Zapata, Felini, Mia, Amado, Guido, Chiquinho,
Meteorango, Montenegro, Leon, João, Luciano, Misael, Dina, Minotauro,
Lacerda, Brando, Pedro, Ruy e outros tantos, tantos...”
É PRECISO DESAPARELHAR
O OLHAR E VER
O QUE ACONTECE LÁ
NAS TERRAS DO RIO
PARANÁ.
belens
pobre poesia e pura emoção
bahia, 12.10.09
Sunday, December 3, 2006
Uttopya nascendo
A uttopya nasce a cada momento em forma de diálogo, troca, desejo, como projeto de filme e de vida. Bem vindo a esta viagem
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